Entre o dito e o não-dito

Uma das coisas que mais me fascinam na dialética é justamente aquela parte não-óbvia no contexto. Para os linguistas, o não-dito, para os simplistas, as entrelinhas. Para um curioso, a intencionalidade. E intenção é um valor para mim.

Veja você leitor, mesmo que o discurso não seja claro, há diversas pistas espalhadas na interação não-verbal, se você estiver disposto a observar. Postura corpórea, um tamborilhar de dedos, a cabeça pendendo para um determinado lado do corpo… As pistas estão ali, para serem consideradas, e elas complementam o discurso.

Acontece que num contexto teórico se imagina que o não-verbal e o verbal guardam uma coerência óbvia, como por exemplo uma pessoa dizer que está com fome enquanto leva as mãos ao ventre e faz movimentos circulares. Mas à medida que crescemos, percebe-se que a distância entre o dito e o não dito vai se ampliando de tal modo que veremos, por exemplo, uma pessoa completamente faminta, num restaurante em um encontro romântico, pedir uma saladinha dizendo que está com-ple-ta-men-te sem fome. E mesmo que seu par pergunte um: “tem certeza de que não quer mais nada além da salada?”, talvez como resultado de uma boa leitura do não-verbal, essa pessoa reafirmará categoricamente seu discurso, mesmo com seu estômago se contorcendo de dor. Esse é o mundo dos adultos.

Textos, re-textos, contextos. Pretextos.
Quantas vezes o verbal se torna apenas um pretexto para que nosso não verbal se manifeste? Porque resistimos ao desnudar nossas idéias, nossos temores, nossas inclinações ou desejos, se muitas vezes são esses, quando omitidos, os que governam nossas ações? Dissimuladamente se entregam em contextos banais, anunciando a plenos pulmões seu “- Estou aqui! Ouve-me que sou vivo!”
Ainda assim, infantilmente ocultamos em nosso verbal ou o não-dito, como a criança que brinca de esconde-esconde ocultando seu rosto sob a toalha da mesa, deixando o corpo ali, à mostra, e sentindo-se plenamente camuflada com seu gesto.

Mesmo que não se deseje, a existência do verbal está ligada ao não verbal sempre, ainda que à revelia do interlocutor. Porque este é treinado toda uma vida a se expressar pelo verbal. Com o treino o verbal é moldado, esculpido, trabalhado para dar forma a qualquer idéia que exista, adequando-se a qualquer audiência com primor. Já o não-dito é como o cavalo selvagem da alma, que percorre as pradarias dos contextos na sua forma mais natural. Indomado, livre, dispensando quaisquer tratamentos vai se fazendo presente, com aquela beleza de ser. Não é possível domá-lo. Só admirá-lo, estudá-lo, compreendê-lo. E deixá-lo ser.

 

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