Pegadas na areia

Enquanto estivermos contidos em uma consciencia individual todas as nossas impressões, vivências e competências são exclusivas ao indivíduo. Isso por si já condena a humanidade a uma solidão imensurável. Então me pergunto: como é que faz, se o homem é social, dentro de sua própria natureza?
 
O que faria uma pessoa aproximar-se de outra? Sentir a suas alegrias, seus medos, sua dor?
Não me refiro a nenhum ritual mágico em que haja transferencias de dor por exemplo. Não acredito que nada parecido exista, até pq se houvesse provavelmente isso faria parte do pacote hormonal da maternidade.

Entretanto não consigo entender o que faça alguém envolver-se de tal forma a sofrer, até fisicamente, por algo que não é sua história?
O que faz você chorar no cinema, quando vê o mocinho à beira da morte? Você sabe que são atores ali, que toda a cena é um teatro, mas assim mesmo simplesmente se debulha em lágrimas enquanto “RIcardo Antônio” vira as costas à amada “Catarina Helena”.

O que faz alguém levar consigo um pedaço do outro?
Descobri que esse fenômeno tem nome, e o chamamos de empatia: o ser humano tem essa capacidade inata de “entrar em sintonia” com seu semelhante, em um nível inconsciente, e quando isso acontece, ele entra num estado semelhante ao que seu objeto de empatia esteja.
Eu até diria que é um acaso maravilhoso que nós tenhamos esse recurso, que justamente vai nos amparar quando a solidão, o medo, a tristeza nos acomete. Que acaso incrível o ser humano ser empático!
Justamente no momento que vc mais se desespera, se desestrutura, sente o desamparo, chora, teme… Um outro ser humano pode se aproximar da sua humanidade, tendo visto nela uma chama que também é sua, e dessa forma a mesma solidão da dor é o que te propicia fazer parte de um todo maior.

E sim, esse outro ser humano vai sofrer contigo, quase como que seu corpo pedisse. Como se com isso, parte daquela jornada que ele acompanha ficasse mais leve.

É esse acaso maravilhoso que tmabém faz com que as lágrimas que rolam do seu amigo te façam pesar tuas dores e teus desafios. E ali, sem que percebas, cai uma lágrima, filha daquele momento.
O curioso é, que quanto mais a empatia aproxima um de outro, mais ela aumenta sua força. Aí olha o incrível: aquele que foi atraído e entrou em sintonia com aquele outro ser humano, que sente, sofre e chora, se acerca. E, tendo visto essa cena, aquela pessoa tão entristecida antes, levanta, e empatiza com a intenção daquele ser humano que busca amparar.

E essa energia sublime imantada atrai cada vez mais, numa espiral positiva, aquelas pessoas. Porque ambas se importam.

Ocorre, que mesmo em nosso isolamento consciente, já não estamos sós.
Cada qual pisará seu próprio chão. Mas, lado a lado, a caminhada será mais leve.

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Entre o dito e o não-dito

Uma das coisas que mais me fascinam na dialética é justamente aquela parte não-óbvia no contexto. Para os linguistas, o não-dito, para os simplistas, as entrelinhas. Para um curioso, a intencionalidade. E intenção é um valor para mim.

Veja você leitor, mesmo que o discurso não seja claro, há diversas pistas espalhadas na interação não-verbal, se você estiver disposto a observar. Postura corpórea, um tamborilhar de dedos, a cabeça pendendo para um determinado lado do corpo… As pistas estão ali, para serem consideradas, e elas complementam o discurso.

Acontece que num contexto teórico se imagina que o não-verbal e o verbal guardam uma coerência óbvia, como por exemplo uma pessoa dizer que está com fome enquanto leva as mãos ao ventre e faz movimentos circulares. Mas à medida que crescemos, percebe-se que a distância entre o dito e o não dito vai se ampliando de tal modo que veremos, por exemplo, uma pessoa completamente faminta, num restaurante em um encontro romântico, pedir uma saladinha dizendo que está com-ple-ta-men-te sem fome. E mesmo que seu par pergunte um: “tem certeza de que não quer mais nada além da salada?”, talvez como resultado de uma boa leitura do não-verbal, essa pessoa reafirmará categoricamente seu discurso, mesmo com seu estômago se contorcendo de dor. Esse é o mundo dos adultos.

Textos, re-textos, contextos. Pretextos.
Quantas vezes o verbal se torna apenas um pretexto para que nosso não verbal se manifeste? Porque resistimos ao desnudar nossas idéias, nossos temores, nossas inclinações ou desejos, se muitas vezes são esses, quando omitidos, os que governam nossas ações? Dissimuladamente se entregam em contextos banais, anunciando a plenos pulmões seu “- Estou aqui! Ouve-me que sou vivo!”
Ainda assim, infantilmente ocultamos em nosso verbal ou o não-dito, como a criança que brinca de esconde-esconde ocultando seu rosto sob a toalha da mesa, deixando o corpo ali, à mostra, e sentindo-se plenamente camuflada com seu gesto.

Mesmo que não se deseje, a existência do verbal está ligada ao não verbal sempre, ainda que à revelia do interlocutor. Porque este é treinado toda uma vida a se expressar pelo verbal. Com o treino o verbal é moldado, esculpido, trabalhado para dar forma a qualquer idéia que exista, adequando-se a qualquer audiência com primor. Já o não-dito é como o cavalo selvagem da alma, que percorre as pradarias dos contextos na sua forma mais natural. Indomado, livre, dispensando quaisquer tratamentos vai se fazendo presente, com aquela beleza de ser. Não é possível domá-lo. Só admirá-lo, estudá-lo, compreendê-lo. E deixá-lo ser.

 

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